Dr. Renato Susin Médico Nutrólogo

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Medicina Integrativa e Nutrologia

Biotina, para que serve além do cabelo e da unha

A vitamina B7 trabalha encaixada em enzimas que cuidam da gordura, da glicose e dos aminoácidos. E em dose alta ela mexe no resultado do seu exame.

Ilustração sobre biotina para que serve, com uma cápsula ligada ao fio de cabelo, à unha e a uma engrenagem de metabolismo, ao lado de um tubo de exame
Ouça o resumo sobre a biotina Resumo em áudio · 3 min
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Se você chegou aqui procurando para que serve a biotina, a resposta que aparece em todo rótulo é cabelo, pele e unha. Essa resposta não está errada. Ela só é a menor parte do assunto.

A biotina é a vitamina B7, também chamada de vitamina H, e faz parte do complexo B. Dentro do corpo ela quase não trabalha sozinha. Ela se encaixa em um grupo de enzimas, e é dentro dessas enzimas que a vitamina vira função: montar gordura, regular o quanto de gordura vai virar energia, manter a glicose do sangue nas horas em que você não come e quebrar aminoácidos.

E tem um ponto prático que muda decisão. A biotina em quantidade alta, do tipo que vem nas fórmulas de cabelo, interfere na dosagem de alguns exames de laboratório. O resultado pode vir alterado sem que exista doença nenhuma, e o exame mais afetado no dia a dia é o da tireoide.

O que é a biotina, a vitamina B7 do complexo B

A biotina é uma vitamina solúvel em água, do mesmo grupo da B1, da B2, da B6 e da B12. Solúvel em água quer dizer que o corpo não a estoca em grande quantidade, então ela precisa chegar com regularidade.

Ela vem de dois lugares. Um é a alimentação. O outro é a microbiota, que são as bactérias que vivem no intestino e produzem biotina a partir do que chega até elas. De qualquer um dos dois caminhos, a absorção acontece na parte de cima do intestino delgado.

Como qualquer peça do complexo B, ela raramente age isolada. As vitaminas desse grupo trabalham em conjunto, e é comum que a falta de uma apareça acompanhada da falta de outras.

Para que serve a biotina no metabolismo

As enzimas que usam a biotina como peça se chamam carboxilases, e o nome vem do que elas fazem, que é inserir um pedaço de carbono numa molécula para que a reação seguinte possa acontecer.

Sem a biotina encaixada, essas enzimas existem, mas ficam inativas. Elas só ganham atividade quando outra enzima acopla a biotina no lugar certo delas. É por isso que a quantidade de biotina disponível muda o rendimento de várias vias ao mesmo tempo.

Infográfico mostrando para que serve a biotina no metabolismo, encaixada nas enzimas carboxilases que atuam sobre a gordura, a glicose e os aminoácidos

São três frentes principais.

A primeira é a gordura. Uma dessas enzimas produz a molécula que dá início à construção dos ácidos graxos, matéria-prima de triglicerídeos, de fosfolipídios e das lipoproteínas. Uma segunda enzima, irmã dessa, fica na membrana da mitocôndria e regula o quanto de ácido graxo vai entrar lá dentro para virar energia.

A segunda frente é a glicose. Quando você fica horas sem comer, o corpo precisa fabricar glicose a partir de outros materiais, num processo chamado gliconeogênese. A enzima que abre esse caminho depende de biotina. Quando falta biotina, a taxa desse processo cai.

A terceira frente são os aminoácidos. Duas dessas enzimas fazem a quebra dos aminoácidos de cadeia ramificada, que são a leucina, a valina e a isoleucina, e também participam da degradação do colesterol. O produto final dessa quebra entra no ciclo que gera energia dentro da célula.

Existe ainda uma quarta frente, menos comentada. A biotina está entre os micronutrientes de que o corpo precisa para montar o heme, que é a estrutura que carrega o ferro dentro da hemoglobina e de várias outras proteínas. Quando ela falta, a síntese do heme cai, o desgaste oxidativo dentro da mitocôndria aumenta e o aproveitamento do ferro piora. Nada disso se resolve olhando um nutriente por vez.

Biotina, cabelo e unha: o que ela faz e o que é promessa de rótulo

A biotina tem, sim, papel na manutenção da pele, do cabelo e das mucosas. Ela aparece entre os sinais de falta justamente porque a queda de cabelo e a dermatite estão descritas quando ela está baixa. Até aqui, o rótulo tem razão.

O problema é o que se promete em cima disso. Uma coisa é repor biotina em quem está com ela em falta, e aí faz sentido, porque a queda de cabelo é um dos sinais dessa falta. Outra coisa, bem diferente, é esperar que a cápsula melhore o cabelo de quem não tem falta nenhuma. E, em qualquer dos dois casos, ela não faz nascer fio novo. Contar com ela para isso explica boa parte da frustração com cápsula de cabelo.

E tem a questão da quantidade. As quantidades usadas para dar suporte ao metabolismo são baixas. As fórmulas capilares partem de quantidades muitas vezes maiores, e é essa diferença que cria a interferência nos exames.

O caminho pronto que virou padrão, cápsula de biotina em quantidade alta somada a um inibidor de enzima e a um produto tópico, é o mesmo para todo mundo que entra no consultório. E queda de cabelo tem causas diferentes em pessoas diferentes. Se esse for o seu caso, vale ler o texto sobre as causas da queda de cabelo que o exame revela, porque a reserva de ferro, a tireoide, a vitamina D, o zinco, o cobre e o selênio costumam explicar bem mais do que a biotina. Repare que ela não está nessa lista. O zinco é outro que entra nessa conversa e que também pede leitura com cuidado.

O que faz faltar biotina

A falta de biotina já foi considerada rara, e há um motivo para isso. A quantidade necessária é pequena, e os sinais de carência são pouco específicos, então ela passa despercebida. Mas existem situações bem definidas em que ela aparece.

  • Ingestão insuficiente, situação descrita em quem tem consumo crônico de álcool.
  • Gestação, em que a carência é frequente. Num dos estudos citados na avaliação desse marcador, nove de treze gestantes já estavam com a biotina depletada no início da gravidez.
  • Uso prolongado de certos medicamentos anticonvulsivantes.
  • Má absorção intestinal, que atrapalha a entrada da vitamina mesmo com a alimentação adequada.
  • Uso recorrente de antibióticos, que é um capítulo à parte.

O ponto do antibiótico merece explicação. O antibiótico não escolhe alvo, então ele elimina também os micro-organismos do intestino que produzem biotina, e abre espaço para o crescimento de espécies que não produzem. O resultado é que uma das fontes da vitamina fica menor. Por isso, diante de um marcador de biotina alterado, faz sentido olhar para o equilíbrio da flora intestinal e não só para o prato.

Existe ainda um mecanismo bem específico, que ficou registrado na literatura. A avidina é uma proteína da clara do ovo de aves que se prende à biotina e a impede de ser usada pelas enzimas. Em estudo com pessoas expostas a ela, a biotina ficou indisponível, e o que aconteceu com os exames dessas pessoas mostra por que existe mais de um jeito de medir essa vitamina.

Alimentos com biotina

Antes de pensar em suplemento, o caminho é a alimentação. As fontes de biotina mais citadas são estas:

  • Nozes e oleaginosas em geral. Entram bem no lanche da tarde e em preparos simples.
  • Sementes. Fáceis de somar a saladas, iogurtes e granolas.
  • Batata doce. Fonte vegetal cotidiana, que cabe no almoço e no pré-treino.
  • Espinafre e brócolis. Os vegetais verdes que aparecem com mais consistência quando o assunto é biotina.

Vale lembrar do segundo caminho, que nenhuma tabela de alimento mostra. Um intestino em equilíbrio contribui com parte da biotina do dia. Quem trata só o prato e ignora o intestino cuida de metade do problema.

Biotina em dose alta pode alterar o seu exame de sangue

A biotina em quantidade alta, aquela das fórmulas de cabelo e unha, interfere na dosagem de alguns exames de laboratório. A interferência é mais descrita nos ensaios hormonais e nos marcadores cardíacos, tanto que a orientação de suspender o suplemento antes da coleta já vem impressa no preparo de alguns exames.

Infográfico mostrando como a biotina em dose alta interfere no exame de sangue, com o mesmo tubo de coleta medido duas vezes e o resultado saindo do lugar

O caso que mais aparece na prática é o hormônio da tireoide. Quanto maior a quantidade de biotina em uso, mais o TSH sai alterado no papel. E não é a biotina causando um problema de tireoide, é a biotina atrapalhando a medida.

Uma pessoa toma cápsula de cabelo por meses, faz um exame de rotina, o TSH vem fora da faixa e ela sai do consultório com uma investigação de tireoide, ou até com um tratamento, por causa de um número que era do suplemento. É um erro silencioso, porque nada no laudo avisa.

O conserto é simples e depende de uma informação. Quem usa biotina em quantidade alta precisa suspender o suplemento algum tempo antes da coleta e contar isso a quem pediu o exame. A biotina que vem da alimentação não é o problema aqui, o problema é a quantidade concentrada do suplemento.

Esse mesmo raciocínio vale para os marcadores cardíacos, que são os exames pedidos em situações em que ninguém tem tempo para descobrir depois que o número estava distorcido.

Exame de biotina e o marcador que aparece antes

Existem dois jeitos de olhar para a biotina, e eles respondem a perguntas diferentes.

O primeiro é a biotina sérica, que também aparece nos pedidos como vitamina B7 no sangue total. Ela pede jejum e mostra quanto da vitamina está circulando naquele momento. Os laboratórios trabalham com três faixas de interpretação, uma de deficiência, uma de nível baixo e uma de nível recomendado, e o desejável é chegar à faixa recomendada.

O segundo é o marcador funcional na urina, o beta-hidroxi-isovalerato, que é medido na metabolômica. Ele não mede a vitamina, mede o resultado do trabalho dela. Quando falta biotina, uma das etapas da quebra da leucina fica emperrada, e esse metabólito sobra e aparece na urina.

No estudo com avidina, o marcador da urina subiu já no terceiro dia, enquanto a biotina do sangue permaneceu dentro da faixa de normalidade até o décimo dia. O sangue ainda dizia que estava tudo certo, e as enzimas já estavam trabalhando com pouca biotina.

Por isso a metabolômica soma aos exames de sempre. É comum encontrar a biotina do sangue dentro da faixa e o marcador da urina alto, ou no quintil de cima, mostrando que aquela pessoa precisa de mais aporte de biotina do que está recebendo. Quando esse marcador vem alto junto de lactato e de alanina, também aumentados na urina, a leitura fica ainda mais consistente. E o motivo é o mesmo que o texto já explicou: sem biotina, a enzima que abre a fabricação de glicose trava, esse caminho perde velocidade e o material que ia por ali transborda para os outros dois marcadores.

E o marcador alto não fecha a conversa, ele abre. A pergunta seguinte é por quê: falta na alimentação, desequilíbrio de flora, uso recorrente de antibióticos, problema de absorção. Corrigir a causa é o que muda o resultado, repor sem entender a causa só empurra o problema para frente.

Quando faz sentido repor, e quando não faz

A quantidade de biotina usada para dar suporte às vias do metabolismo é baixa. Ela também aparece nas estratégias voltadas à resistência à insulina, e nesse uso as quantidades continuam baixas.

Já as fórmulas de cabelo e unha partem de quantidades muitas vezes maiores. Usadas por um período curto, com um objetivo definido, elas têm o seu lugar. Mantidas por anos sem revisão, entram na conta com um custo: a interferência no exame e, em situações extremas, sinais descritos de excesso, como reações na pele, incômodo digestivo, alterações relacionadas à insulina e sobrecarga renal.

Repor biotina resolve bem quando a ingestão é insuficiente ou quando existe problema de absorção. Em algumas alterações genéticas do metabolismo dessa vitamina, uma quantidade maior consegue saturar a enzima que funciona mal e devolver atividade a ela, mas isso é um cenário específico, que se acompanha com exame e não se resolve por conta própria.

A quantidade certa não é a mesma para todo mundo, porque as pessoas partem de níveis diferentes, absorvem de formas diferentes e têm demandas diferentes.

Resumo rápido

  • A biotina é a vitamina B7, também chamada de vitamina H, e faz parte do complexo B.
  • Ela vira função dentro de enzimas chamadas carboxilases, que cuidam da gordura, da glicose e da quebra dos aminoácidos.
  • Ela vem da alimentação e também da microbiota, as bactérias que produzem biotina no intestino.
  • Para cabelo, ela conta quando está em falta, porque a queda é um dos sinais de carência. Ela não faz nascer fio novo, e não é a explicação mais comum da queda.
  • Falta de biotina aparece com consumo crônico de álcool, na gestação, com anticonvulsivante de longo prazo, na má absorção e com uso recorrente de antibióticos.
  • Em quantidade alta, a biotina interfere na dosagem de exames, principalmente nos ensaios hormonais e nos marcadores cardíacos.
  • O marcador funcional da urina sobe antes de a biotina do sangue se mexer, e é isso que a metabolômica acrescenta.

Perguntas frequentes

Biotina, para que serve?

A biotina é a vitamina B7, do complexo B, e ela serve para muito mais do que cabelo e unha. Dentro do corpo, a biotina se encaixa em um grupo de enzimas chamadas carboxilases, e é aí que ela vira função. Essas enzimas montam gordura, regulam o quanto de gordura vai virar energia, mantêm a glicose do sangue quando você passa horas sem comer e quebram aminoácidos como a leucina, a valina e a isoleucina. A biotina também dá suporte ao funcionamento do sistema nervoso e à saúde da pele, do cabelo e das mucosas. Ou seja, ela é uma vitamina de metabolismo antes de ser uma vitamina de estética.

A biotina faz o cabelo crescer?

Não é assim que ela funciona. A biotina não faz nascer fio novo, e a queda de cabelo aparece entre os sinais de quem está com ela em falta. São duas coisas diferentes: corrigir uma carência é uma coisa, esperar que a cápsula melhore o cabelo de quem não tem carência nenhuma é outra. Por isso a cápsula pronta de biotina em quantidade alta, que virou o caminho padrão para queda de cabelo, costuma decepcionar. Quando a queda tem outra causa, e ela quase sempre tem, corrigir só a biotina não muda o resultado. A investigação começa pelas causas que aparecem em exame de sangue, como a reserva de ferro, a tireoide, a vitamina D, o zinco e o selênio.

Quais alimentos têm biotina e de onde mais ela vem?

A biotina chega ao corpo por dois caminhos. O primeiro é a alimentação, com destaque para as nozes, as sementes e vegetais como a batata doce, o espinafre e o brócolis. O segundo caminho é o intestino, porque parte da microbiota, que são as bactérias que vivem ali dentro, produz biotina a partir do que chega. Ela é absorvida na parte de cima do intestino delgado. Isso explica por que o intestino desequilibrado entra na conversa sobre biotina, e por que quem tem problema de absorção pode ficar com um nível baixo mesmo comendo bem.

A biotina pode alterar o resultado de exames de sangue?

Pode, sim. A biotina em quantidade alta, do tipo que vem nas fórmulas de cabelo e unha, interfere na dosagem de alguns exames de laboratório, principalmente os ensaios hormonais e os marcadores cardíacos. O caso mais comum na prática é o hormônio da tireoide. O TSH pode vir alterado sem que exista qualquer problema na tireoide, e a pessoa corre o risco de ser tratada por uma alteração que não é dela, é do suplemento. Não é a biotina causando hipotireoidismo, é a biotina atrapalhando a medida. Por isso a orientação é suspender o suplemento algum tempo antes da coleta e avisar quem pediu o exame.

Quais são os sinais de falta de biotina e qual exame mostra?

Os sinais descritos são queda de cabelo, erupções na pele e dermatite, alterações neurológicas como desânimo e letargia, fraqueza muscular e queda da imunidade. São sinais pouco específicos, que se sobrepõem a muitas outras coisas, então nenhum deles fecha diagnóstico sozinho. Existem dois exames. O primeiro é a biotina no sangue, também pedida como vitamina B7, que precisa de jejum e mostra o que está circulando. O segundo é um marcador funcional na urina, o beta-hidroxi-isovalerato, que a metabolômica mede e que sobe antes de o sangue se mexer, mostrando que as enzimas já estão trabalhando com pouca biotina.

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Referências científicas

Segundo o PubMed:

  • Tsoukalas D, Alegakis A, Fragkiadaki P, et al. Application of metabolomics: Focus on the quantification of organic acids in healthy adults. International Journal of Molecular Medicine, 2017. DOI
  • Bates CJ. Vitamin analysis. Annals of Clinical Biochemistry, 1997. PubMed
  • Li D, Ferguson A, Cervinski MA, et al. AACC Guidance Document on Biotin Interference in Laboratory Tests. The Journal of Applied Laboratory Medicine, 2020. DOI

Este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele não substitui a consulta médica nem serve como base para autoprescrição. Suplementos, mesmo as vitaminas mais simples, precisam de orientação profissional para que a indicação, a forma e a quantidade façam sentido para o seu caso.

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