Dr. Renato Susin Médico Nutrólogo

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Saúde Mental e Cognição

Tirosina, para que serve no cérebro e na tireoide

O aminoácido que vira dopamina, noradrenalina e hormônio da tireoide, e por que ele sozinho não resolve.

Ilustração da tirosina abrindo em dois caminhos, um para o cérebro e outro para a tireoide
Ouça o resumo sobre a tirosina Resumo em áudio · 3 min
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A tirosina aparece em fórmulas para foco, em suplementos vendidos para cabelo branco e em conversas sobre tireoide. São promessas bem diferentes, e todas partem do mesmo lugar. Ela é matéria-prima.

Se você chegou aqui procurando para que serve a tirosina, a resposta curta é essa. É dela que o corpo fabrica a dopamina e a noradrenalina, ligadas ao foco, à motivação e à resposta ao estresse, e é dela também que nascem os hormônios da tireoide, que ditam o ritmo do metabolismo.

A resposta longa é a que interessa mais. Ter a matéria-prima em casa não significa ter o produto pronto. Cada uma dessas conversões depende de cofatores, que são os nutrientes que permitem a reação acontecer. É aí que mora a diferença entre tomar um aminoácido e entender o caminho dele.

O que é a tirosina

A tirosina é um aminoácido, uma das peças que se encaixam para formar as proteínas do corpo. Ela faz parte da família dos aminoácidos aromáticos, junto da fenilalanina.

Ela é classificada como aminoácido condicionalmente essencial. Isso quer dizer que, em condições normais, o organismo consegue produzir a tirosina a partir de outro aminoácido, a fenilalanina. Já a fenilalanina é essencial de verdade, ou seja, o corpo não produz o quanto precisa e ela tem que vir da alimentação. Se quiser entender melhor essa divisão, vale ler sobre os aminoácidos essenciais e o que os diferencia.

Quem faz essa transformação é uma enzima chamada fenilalanina hidroxilase. Na maioria das pessoas ela funciona bem. E como a alimentação costuma trazer menos tirosina do que fenilalanina, boa parte da tirosina que circula no corpo vem justamente dessa conversão interna, e não direto do prato.

Tirosina, para que serve: os três caminhos que saem dela

Depois de pronta, a tirosina se divide em três destinos diferentes. Entender esses três caminhos já responde a maior parte das dúvidas sobre ela.

  • Catecolaminas. Dopamina, noradrenalina e adrenalina, os mensageiros químicos ligados ao foco, à motivação e à resposta de luta ou fuga.
  • Hormônios da tireoide. O T4 e o T3, que comandam o ritmo do metabolismo do corpo inteiro.
  • Melanina. O pigmento que dá cor à pele.

Infográfico mostrando os três caminhos que saem da tirosina, um para as catecolaminas, um para os hormônios da tireoide e um para a melanina

É por isso que a mesma molécula aparece em conversas tão distantes entre si. Quem procura foco e quem procura tireoide estão olhando para dois ramos da mesma via.

Tirosina, foco e motivação

É deste ramo que vem a fama da tirosina como o aminoácido do foco, e ele é o mais procurado dos três.

As catecolaminas participam de atividades básicas do sistema nervoso, como movimento, memória, atenção, resolução de problemas, desejo e motivação. Elas também estão na resposta de luta ou fuga, na frequência cardíaca e na produção de energia. É um grupo de mensageiros que sustenta boa parte do que a gente chama de disposição mental.

A montagem segue uma ordem. A tirosina vira L-dopa, a L-dopa vira dopamina e a dopamina vira noradrenalina, que depois pode virar adrenalina. A etapa que dita o ritmo de toda a linha é a primeira, comandada por uma enzima chamada tirosina hidroxilase. Se ela trabalha devagar, o resto da fila trabalha devagar junto.

Vale um cuidado aqui. Dificuldade de concentração, falta de motivação e cabeça lenta são queixas, não um diagnóstico. Esses sinais se sobrepõem a muitos quadros diferentes, e o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é um diagnóstico clínico sério, com vários critérios, muito além de um sintoma isolado. Se a queixa é a falta de foco em si, o texto sobre o que fazer quando falta concentração trata dela de forma mais ampla, assim como o de fadiga mental.

Outro ponto que evita frustração: os estudos indicam que a tirosina usada de forma isolada não é eficaz no tratamento da depressão. Ela é precursora de neurotransmissores, e isso não a transforma em antidepressivo. O que faz diferença é o conjunto, o aminoácido acompanhado dos cofatores de que a via precisa.

Tirosina e tireoide

A produção do hormônio da tireoide começa no aminoácido tirosina. Dentro da glândula, uma enzima chamada tireoperoxidase vai incorporando o iodo às moléculas de tirosina, e é dessa junção que nascem o T4 e o T3.

Níveis baixos de tirosina no plasma já foram associados ao hipotireoidismo, e a tirosina plasmática chegou a ser proposta como uma avaliação útil da função da tireoide. Quando ela está baixa, os sintomas possíveis incluem cansaço persistente, alteração de humor e prejuízo de aprendizado e de memória.

Isso não quer dizer que tomar tirosina resolva a tireoide. A glândula depende de um time de nutrientes que inclui o iodo, o ferro, o selênio, o zinco, as vitaminas do complexo B, a vitamina C e a vitamina D. Estresse, infecção e algumas toxinas ambientais também atrapalham essa produção. Quem já trata a tireoide segue o tratamento do mesmo jeito, e o que a visão funcional integrativa acrescenta é olhar as peças de que essa produção depende.

Tirosina e tiroxina não são a mesma coisa

Muita gente que procura tirosina está, na verdade, atrás da tiroxina livre, o T4 livre que aparece no exame de sangue. Os nomes são parecidos e as duas coisas são completamente diferentes.

A tirosina é o aminoácido, a matéria-prima. A tiroxina é o hormônio pronto, formado quando o iodo se liga a resíduos de tirosina dentro da tireoide. Uma é o tijolo, a outra é a parede levantada. Se o seu exame fala em T4 livre, o assunto é a tiroxina.

Melanina, e por que a tirosina entra em fórmula para cabelo branco

O terceiro caminho é o da melanina, o pigmento que dá cor à pele. A tirosina é mesmo a matéria-prima desse pigmento, e é daí que vem a ideia de usá-la contra o cabelo branco.

Só que ser matéria-prima de um pigmento não significa devolver cor a um fio que já embranqueceu. O que se sustenta é que a tirosina participa da produção da melanina na pele. Prometer a volta da cor do cabelo é um passo que essa via não dá.

Os cofatores, e por que a tirosina sozinha não resolve

Nenhuma dessas três conversões acontece só com a presença do aminoácido. Cada etapa precisa de um nutriente específico para andar.

  • Ferro. É o mineral que a enzima usa para transformar a fenilalanina em tirosina, e depois a tirosina em L-dopa. Ferro insuficiente trava as duas pontas da via.
  • Tetraidrobiopterina. Um cofator produzido pelo próprio corpo, também necessário nas duas etapas. Para fabricá-lo, o organismo depende de zinco, magnésio e vitamina B3.
  • Vitamina B6. Participa da transformação da L-dopa em dopamina.
  • Cobre e vitamina C. Entram juntos na etapa em que a dopamina vira noradrenalina. O cobre é bastante negligenciado, e o uso prolongado de doses altas de zinco pode desequilibrar essa dupla.

Infográfico com os cofatores da via da tirosina, mostrando ferro, vitamina B6, cobre e vitamina C nas etapas da conversão em dopamina e noradrenalina

Repare no desenho que se forma. Se falta ferro, a matéria-prima nem chega a ser produzida direito. Se falta cobre, a dopamina se acumula e a noradrenalina não é formada como deveria. Cada nutriente ausente trava um degrau diferente da mesma escada.

É por isso que suplementar tirosina sem olhar os cofatores costuma dar em pouca coisa. Não é que o aminoácido não sirva. É que ele é só uma das peças.

Tirosina com vitamina C, por que aparecem juntas

A dupla aparece em muita fórmula pronta, e ela tem dois motivos bioquímicos para existir.

O primeiro é indireto. A vitamina C aumenta a absorção intestinal do ferro, e é o ferro que sustenta as duas conversões principais dessa via. Quando há deficiência de ferro, a vitamina C ajuda a restaurar a formação da tirosina justamente por esse caminho.

O segundo é direto. A vitamina C, junto do cobre, é cofator da etapa em que a dopamina se transforma em noradrenalina. Ou seja, ela aparece duas vezes na mesma história.

Onde encontrar tirosina e como ela costuma ser usada

A tirosina vem da proteína da alimentação. Alimentos ricos em proteína, como carnes, peixes, ovos, leite e derivados e leguminosas, são a fonte natural dela e da fenilalanina que a origina.

Só que comer proteína é a metade do caminho. Antes de virar aminoácido, a proteína precisa ser quebrada, e essa quebra começa com o ácido do estômago. Quem produz pouco ácido gástrico, ou tem uma infecção por H. pylori, pode comer bem e ainda assim absorver mal. Por isso, além de olhar o quanto a pessoa come de proteína, a consulta olha como ela digere essa proteína.

Na forma de suplemento, ela aparece como L-tirosina e também como N-acetil-L-tirosina, uma versão acetilada que atravessa melhor a barreira que separa o sangue do cérebro.

Existe ainda um detalhe de transporte. A tirosina divide o mesmo transportador de entrada no cérebro com outros aminoácidos neutros, entre eles o triptofano, que é o precursor da serotonina, e os aminoácidos de cadeia ramificada dos suplementos de treino. Eles competem entre si. Tomar tudo junto reduz a quantidade que efetivamente chega ao cérebro, o que explica por que a mesma quantidade funciona para uma pessoa e não faz nada para outra.

A dose certa não é a mesma para todo mundo, e a forma também não. Isso sai de uma avaliação individual, não do rótulo.

O que a metabolômica mostra sobre a tirosina

A metabolômica soma aos exames de sempre uma leitura de como essa via está funcionando de verdade, e não só de quanto aminoácido existe.

Ela dosa a tirosina e a fenilalanina, e olha também a razão entre as duas. Uma razão alta de fenilalanina para tirosina sugere que a conversão está emperrada. E ela mede marcadores urinários que refletem o produto final, como o homovanilato, ligado à dopamina, e o vanilmandelato, ligado à noradrenalina e à adrenalina.

Tirosina alta no resultado geralmente não significa excesso de tirosina na alimentação. Costuma significar que ela está parada, sem ser convertida, por falta de ferro, de tetraidrobiopterina ou de vitamina B6. Tirosina baixa, por outro lado, aponta para pouco aporte, digestão ruim ou falta de ferro no primeiro degrau.

O raciocínio muda quando se olha assim. Em vez de repor o aminoácido que está no papel, procura-se o degrau que travou. Se quiser entender melhor essa lógica, vale ler o que é a metabolômica e o que ela mede.

Resumo rápido

  • A tirosina é um aminoácido condicionalmente essencial, produzido a partir da fenilalanina, que vem da alimentação.
  • Dela saem três caminhos: dopamina e noradrenalina, hormônios da tireoide e melanina.
  • No cérebro, ela sustenta atenção, memória, motivação e a resposta ao estresse. Usada isolada, não trata depressão.
  • Na tireoide, é a partir dela que o iodo forma o T4 e o T3. Tirosina baixa no plasma já foi associada ao hipotireoidismo.
  • Tirosina e tiroxina livre (T4 livre) são coisas diferentes, apesar dos nomes parecidos.
  • A via depende de ferro, tetraidrobiopterina, vitamina B6, cobre e vitamina C. Sem cofator, o aminoácido sozinho rende pouco.
  • Na metabolômica, tirosina alta costuma indicar via travada, e não excesso do aminoácido.

Perguntas frequentes

O que é a tirosina e para que ela serve?

A tirosina é um aminoácido, uma das peças que formam as proteínas do corpo. O que a torna diferente é o que sai dela. Ela é a matéria-prima de três produtos: a dopamina e a noradrenalina, ligadas ao foco, à motivação e à resposta ao estresse, os hormônios da tireoide, que comandam o ritmo do metabolismo, e a melanina, o pigmento da pele. Ela é considerada um aminoácido condicionalmente essencial, porque o corpo consegue produzi-la a partir da fenilalanina, um aminoácido que vem da alimentação, mas em algumas situações essa produção não dá conta da demanda.

Qual a diferença entre tirosina e tiroxina livre (T4 livre)?

Os nomes são parecidos e as duas coisas são completamente diferentes. A tirosina é um aminoácido, matéria-prima que vem da alimentação e do metabolismo. A tiroxina, que aparece no exame de sangue como T4 livre, é o hormônio pronto, produzido pela tireoide quando o iodo é incorporado a moléculas de tirosina dentro da glândula. Ou seja, uma é o tijolo e a outra é a parede construída. Quem faz exame de tireoide está olhando a tiroxina, e quem procura o suplemento está falando da tirosina.

Qual a relação entre a tirosina e a tireoide?

A produção do hormônio da tireoide começa na tirosina. Dentro da glândula, o iodo é incorporado a moléculas de tirosina e é daí que nascem o T4 e o T3. Níveis baixos de tirosina no plasma já foram associados ao hipotireoidismo, e o quadro pode vir acompanhado de cansaço persistente, alteração de humor e dificuldade de memória. Isso não significa que suplementar tirosina trate a tireoide. A saúde da glândula depende de um conjunto que inclui iodo, ferro, selênio, zinco, vitaminas do complexo B, vitamina C e vitamina D, e o tratamento em curso não se mexe por conta própria.

Por que a tirosina aparece junto com a vitamina C?

Por dois motivos ligados à mesma via. O primeiro é o ferro. A vitamina C aumenta a absorção intestinal do ferro, e o ferro é o mineral que a enzima precisa para transformar a fenilalanina em tirosina e a tirosina em dopamina. O segundo é mais direto: a vitamina C, junto do cobre, participa da etapa em que a dopamina vira noradrenalina. Por isso a dupla faz sentido bioquímico. O que decide se ela cabe em cada pessoa é a avaliação individual, não o rótulo.

Onde encontrar tirosina e como ela costuma ser usada?

A tirosina vem da proteína da alimentação, então alimentos ricos em proteína são a fonte natural dela. Mas comer proteína não basta: é preciso digerir bem, e a produção de ácido no estômago tem papel direto nisso. Na forma de suplemento ela aparece como L-tirosina e também como N-acetil-L-tirosina, uma versão que atravessa melhor a barreira do cérebro. Um detalhe importante é que ela disputa a entrada no cérebro com outros aminoácidos neutros, o que muda o momento de usar. A dose certa não é a mesma para todo mundo e precisa sair de uma avaliação médica.

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Em consulta, avalio o seu caso com história e exames. A avaliação pode incluir exames de precisão, como a metabolômica, somados aos exames de sempre, para enxergar se falta matéria-prima, se falta cofator ou se o degrau travado é outro, e ajustar o plano de acordo com o seu metabolismo. Agende a sua consulta aqui.

Referências científicas

Segundo o PubMed:

  • Jongkees BJ, Hommel B, Kühn S, Colzato LS. Effect of tyrosine supplementation on clinical and healthy populations under stress or cognitive demands: A review. Journal of Psychiatric Research, 2015. DOI
  • Attipoe S, Zeno SA, Lee C, et al. Tyrosine for Mitigating Stress and Enhancing Performance in Healthy Adult Humans, a Rapid Evidence Assessment of the Literature. Military Medicine, 2015. DOI
  • Mahoney CR, Castellani J, Kramer FM, et al. Tyrosine supplementation mitigates working memory decrements during cold exposure. Physiology & Behavior, 2007. DOI

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Ele não substitui a consulta médica nem serve como base para autoprescrição. Suplementos, mesmo os naturais, precisam de orientação profissional para que a indicação, a forma e a dose façam sentido para o seu caso.

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