Se você pesquisou falta de desejo sexual, talvez esteja se perguntando se isso é só fase, se é “da cabeça” ou se faz parte da idade. A resposta honesta é que, na maioria das vezes, existe uma causa por trás. E entender essa causa muda tudo.
A perda de libido é uma das queixas mais comuns no consultório e, ao mesmo tempo, uma das mais silenciadas. Muita gente convive anos com isso sem falar com ninguém. Aqui a ideia é diferente: olhar para o desejo como um sinal do corpo, com calma e sem julgamento, e mostrar o que costuma valer a pena investigar.
O desejo não é uma peça isolada
O desejo sexual depende de um equilíbrio fino entre hormônios, sistema nervoso, qualidade do sono, nível de estresse e até a saúde do intestino. Quando algum desses sistemas sai do eixo, o desejo costuma ser um dos primeiros sinais a sumir.
Na prática, as causas se dividem em dois grupos que quase sempre andam juntos: as emocionais e as físicas.
Entre as causas emocionais estão a depressão, a ansiedade de desempenho e o estresse acumulado. Vale uma observação delicada: quando há frustrações repetidas na vida sexual, a mente pode começar a se esquivar dos momentos íntimos como uma forma de proteção, sem que a pessoa perceba bem o porquê.
Entre as causas físicas, as mais frequentes são o desequilíbrio hormonal, a obesidade, o sedentarismo, o sono de má qualidade, o diabetes, doenças do coração e a exposição a substâncias que mexem com os hormônios.
A falta de desejo sexual é um sintoma. E todo sintoma tem uma causa que merece ser investigada com cuidado.

Hormônios e libido: a testosterona não é só coisa de homem
A testosterona é o hormônio mais ligado ao desejo, e isso vale para homens e mulheres.
Nos homens, a queda começa cedo
Nos homens, os níveis de testosterona começam a cair naturalmente a partir dos 30 anos. Com o tempo, ficam mais comuns a queda da libido, o cansaço, a dificuldade de concentração, a perda de massa muscular e as variações de humor. Esse conjunto de sintomas ligado à baixa testosterona é chamado de hipogonadismo, que é a produção insuficiente do hormônio pelos testículos. Quando aparece de forma mais marcada com a idade, é às vezes chamado de andropausa, um processo mais lento e silencioso que a menopausa.
A obesidade pesa muito nessa conta. O excesso de tecido gorduroso aumenta a conversão de testosterona em estrogênio e reduz ainda mais o hormônio disponível. Por isso, cuidar do peso e do metabolismo costuma fazer diferença direta. Se o cansaço também faz parte do seu dia, vale entender melhor a relação entre falta de energia e cansaço, porque os dois caminham juntos com mais frequência do que parece.
Nas mulheres, o hormônio esquecido da libido
Nas mulheres, a testosterona é produzida em quantidade bem menor, mas também tem papel importante no desejo. Na menopausa, caem o estradiol e a progesterona, e a testosterona também diminui. Essa combinação é o que leva muitas mulheres a relatarem, além dos calores, uma perda real de desejo, ressecamento vaginal, menos energia e oscilações de humor. Se esse é o seu momento, vale conhecer melhor os sintomas e o tratamento da menopausa.
Estudos sobre reposição de testosterona em mulheres com deficiência mostram melhora do desejo sexual em casos bem selecionados. Importante: isso é decisão clínica individual, com indicação e acompanhamento médico, nunca uma fórmula para todo mundo.
O que o estresse e o sono ruim fazem com a sua libido
O estresse crônico é um dos maiores inimigos do desejo, e o mecanismo é direto.
Quando o corpo vive em estresse prolongado, o eixo HPA (hipotálamo, hipófise e adrenal), responsável pela resposta ao estresse, entra em sobrecarga. Nesse estado, a produção hormonal como um todo se desorganiza. Cortisol, hormônio do crescimento e testosterona dependem de um ambiente metabólico equilibrado, e o estresse contínuo bagunça essa orquestra.
O sono é um dos pilares desse equilíbrio. É principalmente durante o sono profundo, na primeira metade da noite, que o corpo produz testosterona e hormônio do crescimento e ajusta o cortisol. Quem dorme pouco, dorme mal ou tem apneia do sono (paradas repetidas da respiração durante o sono) tende a apresentar queda nos níveis hormonais e na função sexual.
Dormir bem não é luxo. É uma condição básica para o equilíbrio hormonal e para o desejo.
Disruptores endócrinos: o que entra sem você ver
Outro fator cada vez mais presente é a exposição aos chamados disruptores endócrinos. São substâncias que imitam ou bloqueiam a ação dos hormônios e mexem com o equilíbrio do corpo.
O Bisfenol A, mais conhecido como BPA, é um dos mais estudados. Está em embalagens plásticas, latas de alimentos e recibos de papel térmico. Pesquisas associam a exposição alta ao BPA a redução do desejo e a disfunção erétil, em parte por reduzir a testosterona disponível. Microplásticos e alguns pesticidas também têm ação que atrapalha os hormônios masculinos.
Não dá para viver numa bolha, mas alguns hábitos simples reduzem a exposição:
- Plástico no calor. Evite aquecer alimentos em embalagens plásticas.
- Mais comida de verdade. Prefira alimentos frescos e, quando possível, orgânicos.
- Peixe com bom senso. Varie a origem e a quantidade de peixes e frutos do mar.
- Papel térmico. Reduza o contato com recibos de caixa de supermercado.

Medicamentos que podem reduzir o desejo
Um ponto pouco conversado é que alguns remédios de uso comum podem, como efeito colateral, diminuir a libido.
Os inibidores da 5-alfa-redutase, como finasterida e dutasterida, usados para calvície e para o aumento benigno da próstata, são exemplos. Eles bloqueiam a conversão de testosterona em DHT (uma forma mais potente do hormônio), e parte dos pacientes relata queda do desejo durante o uso. Alguns anti-hipertensivos (remédios de pressão), antidepressivos e diuréticos também podem interferir.
Se você usa algum medicamento contínuo e notou a queda do desejo depois dele, não pare por conta própria. Converse com o seu médico sobre essa possibilidade. Às vezes existe um ajuste possível.
O olhar da medicina funcional integrativa
A medicina funcional integrativa não trata a falta de desejo como um problema solto. Ela tenta entender o que está desequilibrado nos sistemas que sustentam o desejo: hormônios, sono, estresse, inflamação, microbiota e metabolismo. Quando o estresse e o humor estão no centro, cuidar disso também conta, e às vezes começa por temas simples como a ansiedade leve do dia a dia.
Na prática, a investigação costuma incluir:
- Hormônios. Testosterona total e livre, estradiol, progesterona, SHBG (proteína que prende a testosterona no sangue), LH, FSH e DHEA.
- Sono e estresse. Verificar apneia do sono, insônia e sobrecarga crônica.
- Estilo de vida. Sedentarismo, alimentação inflamatória, obesidade e exposição a disruptores endócrinos.
- Doenças de base. Diabetes, resistência à insulina, doenças do coração e hipotireoidismo (tireoide funcionando devagar) afetam os hormônios sexuais.
A metabolômica, quando indicada, entra como uma camada a mais de informação, somando aos exames convencionais e nunca substituindo a investigação habitual. O objetivo não é só “trazer o desejo de volta”, e sim encontrar a causa e cuidar dela.
Quando o desejo cai, o corpo está sinalizando que algo saiu do equilíbrio. Esse sinal merece atenção, não normalização.
Resumo rápido
- A falta de desejo quase sempre tem uma causa identificável, física, emocional ou os dois juntos.
- A testosterona é central para a libido em homens e mulheres, e cai com idade, peso, sono ruim e menopausa.
- Estresse crônico e sono de má qualidade derrubam os hormônios e o desejo.
- Disruptores endócrinos como o BPA e alguns medicamentos contínuos também podem reduzir a libido.
- Investigar a causa, em vez de normalizar o sintoma, é o caminho. E procurar ajuda não é exagero.
Perguntas frequentes
Falta de desejo sexual é normal ou tem tratamento?
A queda do desejo é comum, mas tratar como algo normal e inevitável costuma ser um erro. Na maioria das vezes existe uma causa identificável: alteração hormonal, sono ruim, estresse crônico, algum medicamento de uso contínuo, uma doença de base como diabetes ou hipotireoidismo, ou questões do relacionamento. Quando a causa é encontrada e cuidada, o desejo costuma melhorar. Por isso vale investigar em vez de só conviver com a queixa.
Quais exames investigar quando a libido cai?
Depende de cada pessoa, mas a investigação costuma incluir hormônios sexuais como testosterona total e livre, SHBG, estradiol e, nas mulheres, progesterona, além de LH, FSH e DHEA. Também entram a avaliação da tireoide, glicemia e perfil metabólico, e uma conversa atenta sobre sono, estresse, humor e medicamentos em uso. Os exames servem para entender o cenário inteiro, não para tratar um número isolado.
Estresse e sono ruim diminuem o desejo sexual?
Sim, e bastante. O estresse crônico mantém o eixo do cortisol em sobrecarga e desregula a produção hormonal como um todo. O sono é onde boa parte da testosterona é produzida e o cortisol é ajustado. Quem dorme pouco, dorme mal ou tem apneia do sono tende a ter níveis hormonais mais baixos e função sexual prejudicada. Cuidar do sono e do estresse costuma ser um dos primeiros passos.
Falta de testosterona afeta o desejo só nos homens?
Não. A testosterona é o hormônio mais ligado ao desejo nos dois sexos. Nos homens, ela cai aos poucos a partir dos 30 anos. Nas mulheres, é produzida em quantidade bem menor, mas também tem papel importante, e cai na menopausa junto com o estradiol e a progesterona. Por isso a perda de desejo na mulher também pode ter um componente hormonal, e não apenas emocional.
Quando devo procurar um médico por falta de desejo sexual?
Vale procurar quando a queda do desejo incomoda você ou afeta o relacionamento, quando vem acompanhada de cansaço, alteração de humor, ganho de peso ou problemas de sono, ou quando você usa um medicamento contínuo e notou a mudança depois dele. Procurar ajuda não é exagero. É a forma de descobrir o que está por trás e cuidar da causa, não só do sintoma.
Quer entender o que está por trás da sua libido?
Acompanhe o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo e especialista em medicina funcional integrativa, nas redes sociais para conteúdos sobre hormônios, sono e metabolismo. Se quiser ir além, é possível agendar uma consulta com avaliação individual, que pode incluir exames de precisão como a metabolômica, somados aos exames habituais.
Referências científicas
Segundo o PubMed:
- Achilli C, Pundir J, Ramanathan P, et al. Efficacy and safety of transdermal testosterone in postmenopausal women with hypoactive sexual desire disorder: a systematic review and meta-analysis. Fertility and Sterility, 2016. DOI
- Andersen ML, Alvarenga TF, Mazaro-Costa R, et al. The association of testosterone, sleep, and sexual function in men and women. Brain Research, 2011. DOI
- Kovanecz I, Gelfand R, Masouminia M, et al. Oral Bisphenol A (BPA) given to rats at moderate doses is associated with erectile dysfunction, cavernosal lipofibrosis and alterations of global gene transcription. International Journal of Impotence Research, 2013. DOI
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Não pare nem inicie medicamentos por conta própria. Procure um profissional de saúde para avaliação individual.


