Creatina: para que serve e como usar do jeito certo
- há 16 horas
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A creatina é provavelmente o suplemento mais pesquisado do mundo. No Brasil, ela é buscada mais de 1 milhão de vezes por mês só no Google. Mesmo assim, muita gente ainda tem dúvidas: para que ela realmente serve? Faz mal para os rins? Mulher pode tomar? Idoso pode usar?
Neste post, vou responder essas perguntas com base na ciência e na visão da medicina funcional integrativa, para você entender de verdade o que acontece no seu corpo quando você toma creatina.
O que é a creatina e como ela funciona no seu corpo
A creatina é um composto produzido naturalmente pelo organismo, sintetizado principalmente pelo fígado, rins e pâncreas a partir de aminoácidos. Ela também é obtida pela alimentação, especialmente pelo consumo de carnes vermelhas e peixe.
Mas o que ela faz de concreto? A creatina atua como uma espécie de reserva de energia rápida para os seus músculos.
Para entender isso, é preciso saber que o corpo usa uma molécula chamada ATP (adenosina trifosfato) como "combustível" para praticamente tudo que faz.
Durante um esforço intenso, o ATP é gasto rapidamente. A fosfocreatina, que é a forma como a creatina fica armazenada no músculo, doa um fosfato para o ADP (que é o ATP "gasto") e o reconverte em ATP novamente.
Em outras palavras: a creatina acelera a ressíntese de energia muscular, permitindo que você se recupere mais rápido entre um esforço e outro.
A creatina aumenta a concentração de fosfato disponível no músculo, acelerando a ressíntese de ATP e melhorando a performance em esforços de alta intensidade.
Creatina para que serve: o sistema energético que você precisa conhecer

O corpo humano possui três sistemas energéticos principais. A creatina atua especificamente no chamado sistema fosfagênio, também conhecido como sistema ATP-CP.
Esse sistema é ativado em esforços de alta intensidade e curta duração, como:
• Musculação e treinos de força
• Sprints curtos
• Saltos e movimentos explosivos
• Artes marciais e esportes de combate
• Exercícios intervalados de alta intensidade (HIIT)
Nesse contexto, a creatina é um dos suplementos com maior respaldo científico.
Mas aqui entra um detalhe importante: para atividades de longa duração, como corridas de resistência ou ciclismo aeróbio prolongado, a creatina não é necessariamente o melhor suplemento. Outros compostos, como a beta-alanina, têm eficácia mais específica para esse perfil de treino.
A escolha do suplemento certo deve considerar o tipo de atividade e o objetivo do paciente. É exatamente essa individualização que diferencia a abordagem funcional integrativa da receita genérica.
Creatina e cérebro: o benefício que pouca gente conhece
Quando as pessoas pensam em creatina, pensam quase sempre em músculo.
Mas a creatina também tem um papel importante no sistema nervoso central.
O cérebro é um dos órgãos com maior demanda energética do corpo. E assim como no músculo, ele precisa de ATP para funcionar bem. A fosfocreatina cerebral participa diretamente da produção rápida de energia para os neurônios, as células do sistema nervoso.
Estudos mostram que a suplementação de creatina pode contribuir para:
• Melhora da memória de curto prazo
• Redução da fadiga mental
• Proteção dos neurônios em situações de estresse
• Possível benefício em condições neurodegenerativas (ainda em investigação)
Esses efeitos são especialmente relevantes em situações de privação de sono, estresse elevado ou envelhecimento, quando o cérebro tende a ter mais dificuldade em manter sua produção de energia.
A creatina é um ótimo suplemento para várias reações no corpo, principalmente para proteção neural e cerebral.
Creatina faz mal para os rins? A verdade sobre esse mito
Essa é, sem dúvida, a dúvida mais comum. E ela nasce de uma confusão entre dois termos parecidos: creatina e creatinina.
A creatinina é um resíduo do metabolismo da creatina, e ela é filtrada pelos rins. Por isso, é usada como marcador de função renal em exames de sangue.
O raciocínio equivocado é o seguinte: "se eu tomo creatina, produzo mais creatinina, logo estou sobrecarregando meus rins". Mas isso não é verdade para pessoas saudáveis.
O que pode acontecer é que, em indivíduos que estão desidratados, o aumento da creatinina pode coexistir com outros marcadores alterados, como ureia elevada. Mas isso não significa que a creatina causou dano renal; significa que a hidratação precisava de atenção.
Para quem tem função renal normal, a creatina é segura. Para quem já tem alguma doença renal estabelecida, a avaliação deve ser individualizada por um médico antes de iniciar qualquer suplementação.
A mensagem principal: não abandone um suplemento com alta eficácia e segurança científica por conta de um mito.
Creatina para mulher e para idosos: quando faz ainda mais sentido

A creatina não é um suplemento "de academia para homem jovem". Na verdade, dois grupos que podem se beneficiar muito dela são mulheres e idosos.
Para as mulheres, a creatina auxilia:
• Na manutenção da massa muscular, especialmente durante o climatério e a menopausa
• Na melhora do desempenho em treinos de força
• Na redução da fadiga
• No suporte à saúde cognitiva
Para os idosos, o benefício vai além da estética. A perda de massa muscular com o envelhecimento, chamada de sarcopenia (redução progressiva e involuntária da musculatura esquelética), está diretamente associada a quedas, fraturas, perda de independência e pior qualidade de vida. A creatina, combinada com treino de resistência, é uma das intervenções mais bem documentadas para combater esse processo.
E há um detalhe importante sobre hidratação intracelular: a creatina promove a entrada de líquido para dentro das células musculares, o que é extremamente positivo para a saúde celular. O leve ganho de peso inicial que algumas pessoas notam ao iniciar a suplementação é justamente esse aumento do volume hídrico intramuscular, e não acúmulo de gordura.
Como tomar creatina: protocolo baseado em evidências
A creatina monohidratada é a forma com maior evidência científica e custo-benefício comprovado. Existem outras formas no mercado, como creatina HCl e creatina etil éster, mas nenhuma delas supera de forma consistente a monohidratada em pesquisas clínicas.
Existem dois protocolos mais usados:
Protocolo de carga: 20g por dia, divididas em 4 doses de 5g, durante 5 a 7 dias. Depois, manutenção com 3 a 5g por dia. Satura os estoques musculares mais rapidamente.
Protocolo contínuo: 3 a 5g por dia, sem fase de carga. Leva mais tempo para saturar os estoques (cerca de 4 semanas), mas chega ao mesmo resultado.
Alguns pontos práticos:
• Não é necessário tomar creatina antes do treino. O horário tem pouca influência porque ela atua nos estoques intramusculares, não em efeito agudo imediato.
• Tomar com carboidrato ou junto de uma refeição pode otimizar a absorção.
• Manter boa hidratação ao longo do dia é essencial.
• O uso contínuo (sem ciclar) é seguro e recomendado pela maioria das evidências atuais.
Vale ressaltar que a dosagem ideal pode variar conforme o perfil do paciente, o tipo de treino e os objetivos. Uma avaliação individualizada permite ajustar o protocolo de forma mais precisa.
Creatina e queda de cabelo: o que diz a ciência
Esse é um ponto que gera muito debate. Existe uma hipótese de que a creatina pode aumentar os níveis de DHT (dihidrotestosterona, um hormônio derivado da testosterona), e o DHT em excesso está associado à alopecia androgenética, que é a queda de cabelo de padrão genético.
Essa hipótese vem de um estudo realizado com jogadores de rugby que mostrou aumento de DHT após o uso de creatina. No entanto, esse foi um estudo pequeno, e a comunidade científica ainda não chegou a um consenso sobre esse efeito.
O que a medicina funcional integrativa ensina nesse caso é que a abordagem deve ser sempre individualizada. Quem tem predisposição genética para alopecia androgenética pode precisar de uma avaliação mais criteriosa antes de iniciar ou manter a suplementação. Quem não tem esse histórico familiar tende a não ter esse problema.
Avaliação hormonal, genética e clínica completa permite tomar essa decisão de forma muito mais segura do que generalizar para todos.
Quer entender se a sua suplementação está realmente otimizada?
Saber o que tomar é só o começo. O mais importante é entender se o suplemento que você está usando está sendo absorvido, se está fazendo efeito e se faz sentido para o seu metabolismo.
Agende uma consulta com o Dr. Renato Susin, médico nutrólogo especialista em medicina funcional integrativa. A avaliação pode incluir exames de precisão, como a metabolômica, para identificar desequilíbrios energéticos, inflamatórios e metabólicos, e montar um protocolo de suplementação personalizado para você.




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